Sombras, Sonhos e Ficção Científica

O filme A Origem me fez recordar outros filmes e livros cujo tema é sonho ou discutir a realidade.

O Cinema em si vive de criar ilusões, similares a sonhos e é natural que o tema surja de forma mais explícita de vez em quando.

Há até uma estética, surgida oficialmente em 1924, chamada Surrealismo, que se ocupa justamente do inconsciente, então recém descoberto por Freud. Neste movimento, está um cineasta, Luiz Buñuel , que em 1929 filmou “Um Cão Andaluz”, com clima totalmente onírico. O filme foi baseado em três sonhos de Salvador Dali, pintor considerado ícone do movimento.

Bunñel seguiu carreira, com o tema sonhos implícita ou explicitamente presente em suas obras. O movimento do Surrealismo “encerrou oficialmente” em 1966, com a morte de seu mentor, André Breton.

Um quadro atribuído a Salvador Dali

Todavia esta estética ainda tem seus ecos no cinema, sobretudo na obra de David Linch. Dela vale destacar “Cidade dos Sonhos” (Mulholland Drive, 2001). Nota zero para a tradução do título, que explicita o que deveria ficar implícito. Neste filme, uma mulher é salva de ser assassinada ao ocorrer um acidente com o carro onde está sendo transportada. Acorda desmemoriada é ajudada por outra moça, que começa e investigar o que poderia ter-lhe acontecido. Há referencias ao teatro e ao cinema, tratadas de forma onírica.

É marcante a cena onde as duas vão a um teatro mambembe onde são representados vários números. Em um deles, o apresentador diz “Silencio. No hai banda”. Os instrumentos param e música continua tocando. Altamente onírico, como tudo que acontece naquele teatro e em várias partes do filme, sobretudo o final, bastante freudiano.
Silencio! No hai banda!

David Linch também usa os sonhos na série Twin Peaks. Os sonhos no enredo são usados como um meio de comunicação entre entidades espirituais e o agente Cooper. Aliás, é muito comum usar tratamento onírico para mostrar o mundo espiritual, talvez pela não necessidade do respeito às leis de física que o suposto mundo espiritual teria. Fantasmas atravessam paredes e anjos voam. Em Twin Peaks os dois universos estão intrinsecamente ligados.

Em Twin Peaks o universo onírico
se mistura ao espiritual

Estes dois universos também estão presentes em Giulietta dos Espíritos, de Frederico Fellini, onde uma mulher, após uma sessão espírita, passa a ver espíritos, misturados a lembranças de sua infância, fantasias e sonhos. Final também bastante freudiano.

Giulietta dos Espíritos

Sonho, realidade e cinema se misturam em Paprika, animê de Satyoshi Kon de 2006, que eu considero uma obra prima.

Nesta animação, uma psicanalista utiliza-se de uma máquina para analisar os sonhos de seus pacientes, aparecendo neles como uma moça chamada Paprika. As coisas se complicam quando o aparelho é roubado por um suposto terrorista, que invade os sonhos das pessoas, impondo o seu.

O enredo é extremamente criativo e está recheado de referências ao cinema, ao circo, bares, desfiles festivos e à internet, dentro do contexto de que tudo isto é similar a sonhos. Varias histórias, sonhos e realidades se misturam, com destaque para os dois mistérios principais: quem é o responsável pelo roubo e pela invasão do inconsciente e qual é o trauma do detetive que sonha repetidamente o mesmo sonho. Aqui a interpretação não é freudiana, mas muito ligada ao cinema.

Uma excelente fantasia steampunk francesa, “O Ladrão dos Sonhos” (La Cité des Enfants Perdues) trata dos sonhos como uma necessidade humana imperiosa. Nesta história, um homem não consegue sonhar e para isto sequestra crianças das quais tenta roubar os sonhos, através de uma máquina que os transfere para sua mente. O circo aqui também é uma forte referência. O clima sombrio e densamente noturno faz-nos sentir em um pesadelo.

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